Prêmio Profissional Destaque de Enfermagem 2023 do Coren-SC homenageia Francis Tourinho, do GTT Equidade e Diversidade

 18/12/2023

A coordenadora do Grupo Temático de Trabalho Equidade e Diversidade da SOBRASP, a enfermeira, professora e pesquisadora Francis Solange Vieira Tourinho recebeu, no início de novembro, o Prêmio Profissional Destaque de Enfermagem 2023 do Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina na categoria “Enfermeiro Pesquisador”. Segundo o Coren-SC, o prêmio “homenageia e valoriza o trabalho realizado pela categoria durante o ano, sendo uma celebração e um reconhecimento aos profissionais que dedicam a sua vida à arte do cuidado”. Outros 40 enfermeiros do estado foram agraciados na cerimônia de entrega.

Francis Tourinho é professora associada do Depto. de Enfermagem da UFSC, pesquisadora em Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora - DT-2/CNPq, e líder do Grupo de Pesquisa Laboratório de Investigação do cuidado, Segurança do paciente e Inovação tecnológica em Enfermagem e Saúde UFSC. Foi Secretária de Ações Afirmativas e Diversidade da UFSC de 2016 a 2022 e, além de coordenar o GTT da SOBRASP, também coordena o GT de Populações (In)visibilizadas e Diversidades da ABEM, Associação Brasileira de Educação Médica.

Ela é membro fundadora do Laboratório de Inovação tecnológicas em Saúde -LAIS/HUOL/UFRN, membro do Laboratório de Investigação do Cuidado, Segurança, Tecnologias em Saúde e Enfermagem - LABTEC/UFRN, e faculty no curso da Foundation for Advancement of International Medical Education and Research - FAIMER Brasil. Também foi membro do Comitê Assessor da Área de Enfermagem da CAPES/2018- 2021 e coordenadora de Pesquisa do Departamento de Enfermagem da UFSC, entre outros destaques.

Em entrevista ao Portal SOBRASP, Francis compartilha sua visão sobre a posição da mulher negra na educação, na saúde, na sociedade, reflete sobre a segurança do paciente na formação dos profissionais e nos conta um pouco sobre sua carreira.


Boa leitura!


Em 2022, você ganhou o Prêmio Propesq – Mulheres na Ciência – Especial Cientistas Negras junto a outras cinco pesquisadoras da UFSC, Universidade Federal de Santa Catarina. Agora, a homenagem feita pelo Coren-SC. Em dois anos, dois prêmios. Você viu um “filme” passar dentro de você, sobre o trabalho de uma vida inteira já realizado? Renovou as energias para seguir adiante?

Francis Tourinho - Em toda minha vida tive que provar que era competente. E não é diferente agora, que estou com mais de 30 anos de formada. Em todo lugar que uma mulher negra adentra, parece que temos que mostrar que somos competentes para aquele papel. Se pensarmos no conceito de interseccionalidade, arrastamos junto duas cargas pesadas de opressões sociais, ser mulher e ser negra.

O prêmio do ano passado, para tu veres, não teve todo glamour, divulgação e mídia que o prêmio anterior que não tinha um recorte para pesquisadoras negras. Até a instituição que pauta a diversidade e o antirracismo não consegue passar por cima do racismo estrutural. No dia da entrega não havia ninguém do meu departamento… E sou a única mulher negra de 60 outras professoras.

Já o prêmio deste ano, no Coren, foi de uma importância sem palavras para expressar. Sou pesquisadora, pesquisadora do CNPQ DT-2 , e ainda tenho que escutar em reuniões, quando falo de projetos de tecnologia para segurança do paciente, ícones da enfermagem me desvalorizarem e apontarem outras colegas não PQs ou DTs como detentoras de saber tecnológico. Isso mostra o quanto temos que lutar para que o reconhecimento venha para quem deve ser reconhecido. Vejo esses dois prêmios como uma maneira de trazer o Esperançar para as futuras profissionais da saúde negras, para as quais me dedico a lecionar e mostrar que podemos e somos boas no que fazemos.



Poderia analisar o atual cenário da pesquisa em Enfermagem no país? E quais reflexos os avanços nessa área têm para os enfermeiros que atuam na assistência, visto que o conhecimento científico confere segurança e autonomia aos profissionais de saúde de modo geral?

Francis - A pesquisa na área da enfermagem brasileira é de ponta, internacional e muito representativa para a melhoria e qualidade do cuidado. O que ainda precisamos mudar na sociedade é a visão de subalternidade ou de não autonomia que foi construída no imaginário social. Nossas pesquisas vêm mudando a assistência, somos a maioria da força de trabalho da saúde e ainda se discute o porquê do piso salarial.

                                                                           

As mulheres negras já são maioria nos cursos de graduação, de acordo com dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Anual, mas a minoria nos cargos mais altos da carreira acadêmica. Da mesma forma, elas formam a maioria das enfermeiros e técnicos de enfermagem do país, porém, ocupando postos de nível médio, precarizados e com menor remuneração. Poderia elencar alguns passos essenciais para que o processo de ascensão dessas mulheres seja mais dinâmico?

                                                                                           
Francis - Esse é um dado importante e mostra como a representatividade está aquém do que a enfermagem necessita. Com a Lei 12711/2012, instituímos a lei de cotas nas universidades federais. Também temos a lei de concursos públicos, onde há cotas raciais e para pessoas com deficiência. Meus alunos não têm representatividade no nosso curso. Em mais de 60 docentes, há uma pessoa negra, uma trans e uma PCD. Já comemoramos, porque na maioria das escolas de enfermagem não é assim. Mas, se pensarmos que a maior força da enfermagem é negra, onde estão essas pessoas nos cargos? Há pouco tempo houve um congresso grande da área, numa cidade que tem uma população negra expressiva, mas sem negros na mesa redonda que tratava de diversidade. O primeiro de tudo para mudar essa realidade, penso, é colocar em pauta o assunto. Falar de política antirracista, falar do racismo estrutural e institucional e assumir que há práticas racistas. Educar os educadores a serem antirracistas, anticapacitistas, antilgbtfóbicos, antimisóginos. Ter humildade cultural em todos os cenários de cuidados e ensino da saúde.

O resumo de seu currículo na Plataforma Lattes termina com “mãe de gêmeos prematuros em junho de 1996, que ficaram 21 dias internados numa UTI neonatal”. Esse acontecimento influenciou a escolha pela especialização em Enfermagem Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras (SOBEP) e, anos depois, o doutorado em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas? 

Francis - O fato de eu ter colocado no Lattes a minha maternidade veio do movimento de mães pesquisadoras. Hoje, o Lattes tem um campo para inserirmos a licença-maternidade, pois as mulheres pesquisadoras sentem uma grande cobrança de produtividade acadêmica e não tinham como registrar as pausas na produção no período pós-nascimento dos filhos, o que nos prejudicava na disputa por bolsas de pesquisa.


Entre suas áreas de atuação na pesquisa está o ensino de profissionais de saúde. Com relação à segurança do paciente, o que avançou na formação desses profissionais e o que precisa melhorar para que a cultura da segurança perpasse toda a educação em saúde?

Francis - Sim , eu sou educadora das profissões da saúde por acreditar que os futuros profissionais podem melhorar nossa realidade, com mais segurança e qualidade no cuidado. Também para que esses educandos mudem o perfil do cuidado em saúde, devem ter educadores diferentes, que acolham, que entendam a diversidade, que não sejam racistas, eugênicos, capacitistas, lgbtfóbicos, xenofóbicos. E por isso me dedico também à educação dos futuros educadores da saúde ou na capacitação dos que se permitem mudar.


Qual a importância do Grupo Temático de Trabalho Equidade e Diversidade da SOBRASP, quais ações poderia destacar nesses seis anos da Sociedade e quais os planos para 2024?

Francis - O Grupo Temático tem uma imensa importância, uma vez que nosso SUS atende as diversidades do nosso país. E quem mais sofre com as iniquidades em saúde são as populações invisibilizadas na nossa sociedade. A qualidade e segurança do cuidado deve estar pautada para TODOS, sem exclusão, e as profissionais do GT pautam e lutam por isso no dia a dia das ações.


Gostaria de deixar uma mensagem para as mulheres negras - enfermeiras, técnicas de enfermagem, alunas de graduação e de pós-graduação na área - que almejam chegar onde você chegou?

Francis - Nunca deixem de acreditar em si. Não deixem que falem que vocês não podem fazer algo. Vocês merecem estar onde quiserem estar. Não se calem.

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